Entrevista com Yasmin Adorno, coodenadora-geral da Mostra.
Eu venho das artes, mas trabalho nessa interface de arte, saúde e mental. Agora eu estou num projeto no CAPS do Paranoá e na Inverso, que é uma ONG aqui de Brasília. Na Inverso estou com um grupo de geração de renda com arte e cultura com produções dos frequentadores de lá. No CAPS Paranoá, trabalho com o grupo “Atravessa a Porta” em um projeto de teatro, cinema e performance.
A gente trabalhava os três coletivos juntos, principalmente no Carnaval e aí surgiu essa ideia de fazer uma amostra, de levar esse assunto da saúde mental para outros espaços.
Assim nasceu o Projeto Desalinhos e Costuras, que é formado por 3 coletivos: o Bloco do Rivotril, a Companhia Atravessa a Porta e o Maluco Voador, que é uma banda.
Na mostra Desalinhos e Costuras propomos uma programação para pensar saúde mental e sua interseccionalidade como mobilidade urbana, cultura popular, arte entre outros, pensando a saúde mental no território e em um contexto ampliado.

Você falou que a Mostra de 2023 teve uma boa repercussão. Como é que você poderia avaliar essa repercussão?
Primeiro, o próprio Espaço Renato Russo dá uma estimativa de público que visitou a exposição. Isso surpreendeu a gente. Na Mostra tinha vários eventos, como rodas de conversas, cineclube, teatro e outros. Tivemos uma programação bem intensa em um mês de Mostra. Às vezes a gente ficava sabendo a história do frequentador que estava indo passar a semana lá no Renato Russo. Ele ia por conta própria, via a exposição, conversava com o mediador. O que aponta para uma apropriação do espaço, uma outra relação com a arte.

Como vai ser essa edição da Mostra “Desalinhos e Costuras: Arte e Saúde Mental” que começa em setembro?
Para a edição de 2026, nós criamos o Prêmio Desalinhos uma chamada aberta nacional que nos surpreendeu muito pelo número de inscritos. Foram 430 inscritos de várias regiões do Brasil. A seleção dos trabalhos vai ser uma tarefa muito difícil. Cada inscrito entra com três trabalhos, mas apenas uma será selecionado. As inscrições podiam ser tanto individuais quanto de grupos. A gente fez o edital meio direcionado a frequentadores e usuários de serviços de saúde mental, tanto públicos quanto privados. Uma das coisas que tivemos cuidado em elaborar era a ficha de inscrição porque nós não estávamos interessados em saber o diagnóstico do inscrito, mas sim se a produção artística acontecia em um contexto de cuidado em saúde mental. O processo seletivo vai ser feito pela Tania Rivera, professora, psicanalista e curadora. O resultado da seleção dos trabalhos vai ser divulgado em maio e a exposição começa em setembro no Museu Nacional de Brasília e vai durar dois meses.

Você poderia adiantar algumas atividades que já estão previstas para essa Mostra?
A programação conta com rodas de conversa com a presença de profissionais da saúde, ativistas, artistas do DF, performances, shows, um programa educativo, cineclube. Nessa edição também teremos transporte disponível para agendamento dos serviços da rede de saúde mental para visitar a exposição. Houve inscrições em várias linguagens como, pintura, desenho, poema, objetos, performance e estamos pensando a exposição com essa diversidade também. Deixamos o prazo de inscrição um período grande para que os grupos e artistas pudessem se organizar.

Como é que surgiu a parceria entre os 3 coletivos que estão organizando esse evento?
São grupos que trabalham com afinidade sob a perspectiva da luta antimanicomial. Dois dos grupos tem sede no CAPS do Paranoá, o Atravessa a Porta e Maluco Voador, por afinidade alguns participantes integram os dois coletivos, já o Bloco do RIVOTRIO acontece durante o carnaval e sempre os três coletivos participam, assim começamos a trabalhar juntos. No Bloco do Rivotrio participam vários coletivos de saúde. No início, eram mais coletivos de saúde mental, mas com o tempo o bloco vem incorporando coletivos de saúde de forma geral. Por exemplo, tem um grupo lá de cuidadoras, que se chama “Filhas da mãe”, só de mulheres. O que une os três coletivos é pensar o cuidado em saúde mental por meio da cultura.

A Dra. Nise da Silveira é nossa grande referência quando falamos em arte e loucura. Você já visitou o Museu de Imagens do Inconsciente no Rio de Janeiro onde tem várias obras de pacientes da Dra. Nise?
Sim, inclusive, na edição passada da Mostra, a gente trouxe o Lula Wanderley, que trabalhou com a Nise. Ele era um assistente dela quando Nise criou a Casa das Palmeiras, que depois virou Espaço Aberto ao Tempo. Ele era jovem e trabalhou diretamente com a Dra. Nise.

Vai ter mostra de cinema também?
Sim, teremos alguns dias de cineclube com filmes feitos em contextos de cuidado em saúde mental.






