A loucura: uma jornada no tempo

Por: Jaleko Artmed – A saúde mental, ainda hoje possui um forte estigma, e muitos ainda utilizam termos e expressões pejorativas ao se referirem à indivíduos com transtornos mentais. Esse preconceito é de longa data, os transtornos mentais já foram alvos de diversas observações e variadas formas de tratamento. 

Período Neolítico 

Durante o período Neolítico, que vai de 8000 A.C até 5000 a.C., as questões mentais eram consideradas como causas sobrenaturais, como possessões demoníacas, feitiçaria, maldições e vingança dos deuses. 

Para “curar” os transtornos, acreditava-se que, abrindo o crânio dos indivíduos, procedimento conhecido como trepanação, essa causa (principalmente os espíritos) seriam libertos, e assim, o indivíduo se curaria, pois não teria mais esses seres vivendo dentro de sua cabeça. 

Muitos crânios encontrados, apresentam sinais de recuperação, o que indica que o processo, incrivelmente, não era fatal. 

Outra forma de tratamento, era por meio de rituais religiosos, visto que uma das “causas” para os transtornos era a vingança de deuses. Assim, sacerdotes realizavam rituais para expulsar os espíritos malignos, utilizando para isso exorcismos, encantamentos, expiações, entre outros. 

Egípcios 

Os antigos egípcios, entre 3100 a.C. e 31 a.C., trouxeram maneiras diferentes de tratar os transtornos mentais, estimulando que os indivíduos realizassem atividades recreativas como música, dança e pintura, para assim aliviar os seus sintomas mentais. 

Gregos 

Os gregos, entre 500 a.C. e 146 a.C., também consideravam os distúrbios mentais como vingança e fúria dos deuses, devido à alguma transgressão da divindade. 

Porém, surgiu Hipócrates, que não aceitou a teoria da fúria divina, mas disse que, essas alterações do pensamento, estariam ligadas à uma ocorrência vinda do cérebro, e natural do corpo. Essa explicação se prolongou por bastante tempo, e foi crucial para as escolhas terapêuticas. 

Idade Média 

Na idade média, período que se estendeu o século V ao século XV (476 d.C. e 1453 d.C.), continuou seguindo os conceitos gregos, ditos por Hipócrates, sendo os distúrbios mentais ocorrências naturais do corpo. 

Assim, os tratamentos eram direcionados à recuperação do “equilíbrio do corpo”, e utilizavam para tal, laxantes, eméticos (como o tabaco) e sanguessugas. Além disso, utilizavam também procedimentos mais invasivos, realizando extração de sangue da testa do paciente. 

Naquela época, ter um portador de transtornos mentais era motivo de vergonha, e por isso, muitas vezes a família escondia ou abandonava esses indivíduos. 

Além do transtorno mental em si e da vergonha que a família sentia, esses indivíduos sofriam com as autoridades também, que muitas vezes espancavam e maltratavam, como forma de punição ou na tentativa de espantar o mal, e podiam até mesmo serem presos, pois seu comportamento por vezes era fora do normal. 

Século XVI a XVIII 

A partir do século XVI, “casas de trabalho” começaram a ser criadas, sendo um local de apoio, onde o clero auxiliava no tratamento dos portadores de transtornos mentais, e esses podiam morar nesses asilos, porém, a família precisava pagar. 

A procura era grande, e por isso, logo novas instalações foram criadas, os conhecidos “asilos”. E o que eram asilos? Basicamente uma prisão onde se abrigavam tanto portadores de doenças psiquiátricas quanto outras pessoas que possuíam alguma doença (como doenças venéreas) e indivíduos criminosos, mendigos e inválidos. 

Os pacientes não tinham nenhum tratamento especial, e muito pelo contrário, eram tratados em condições desumanas e com violência. Somete no século XIX, quando a população descobriu a realidade dos asilos, é que uma reforma se instalou. 

Reforma 

Após descobrirem as ações desumanas nos asilos, no século XIX, movimentos se iniciaram, pois alguns pesquisadores, como Phillippe Pinel, tinham como tese que, para realizar os cuidados mentais, era necessário gentileza e não violência. 

A partir daí, os asilos mudaram. Foram instalados os manicômios. Os manicômios eram destinados aos pacientes com transtornos mentais. Os ambientes foram limpos, arejados, com luz solar, e os que ali viviam podiam se exercitar dentro do hospital. 

Foi realmente uma reforma, pois antes, os indivíduos eram tratados com violência, ficavam isolados e muitas vezes com contenções físicas. 

Pinel, defendia que os pacientes deveriam ser estimulados a pensarem em seus atos e considerar a consequência deles. Por vezes deveriam receber pequenas punições, mas nada como a violência empregada anteriormente. 

Havia um equilíbrio entre gentileza e firmeza. Porém, não foi bem assim que o método foi empregado. A realidade é que a violência continuava, e qualquer ação poderia servir como razão para os maus tratos e “submissão dos loucos”. 

No fim do século XIX, especificamente em 1853, foi criado o primeiro hospital psiquiátrico no Brasil, o Hospital Asilo Pedro II, localizado no Rio de Janeiro. 

E a reforma continuou no século XX, quando surgiu Sigmund Freud. Freud acreditava que os sonhos ou qualquer figura que aparecesse na mente do indivíduo poderia ser o acesso à mente inconsciente, onde existem pensamentos e sentimentos reprimidos que poderiam ter influenciado na situação mental, provocando tal instabilidade. 

Mundo Contemporâneo 

Nos séculos XX e XXI as tentativas em curar os transtornos mentais continuaram. Diversos foram os métodos: psicocirurgia, psicofármacos e terapia eletroconvulsiva, mas a realidade é que a efetividade era baixa. 

Na metade do século XX, iniciou-se a reforma psiquiátrica, que tinha como intuito dar fim ao modelo manicomial e aos estigmas existentes, e passar a tratar os pacientes psiquiátricos como um todo, e considerando-os como protagonistas do processo. 

No Brasil, uma médica psiquiátrica que contribui mundialmente para a reforma psiquiátrica, foi Nise da Silveira, revolucionando a saúde mental no Brasil. 

Já na década de 90, houve uma importante evolução no que concerne aos tratamentos utilizados. O lítio foi incluído nos psicofármacos e se mostrou bastante eficaz para tratar distúrbios mentais. 

Século XXI – Cenário Atual 

Hoje, além dos psicofármacos que são muito utilizados, as abordagens da saúde mental se reinventam. 

Vemos hoje formas de tratamento que incluem estilo de vida, prática de atividades de lazer, arte, técnicas de relaxamento e meditação, enfim, abordagens que podem trazer inúmeros benefícios aos pacientes. 

Hoje, discutimos saúde mental e importância da manutenção dela. 

Os estigmas ainda existem, mas muito já se evoluiu. 

Leia na íntegra : Jaleko Artmed – 10/10/2000

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Celio Calmon

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