Clayton Silva de Souza é poeta do amor e da vida, escritor, Bacharel em Direito e militante da luta antimanicomial. Como surgiu a ideia de escrever esse livro “Como aprendi a lidar com a depressão”?

Eu passei ao longo da minha vida com vários traumas e tive muitos gatilhos da depressão. Esses gatilhos estavam me destruindo, sobretudo na época que a minha mãe faleceu. Aí conheci o que era verdadeiramente essa depressão que acomete vários brasileiros na nossa sociedade.  Aí veio a ideia de dar cabo da minha própria vida. Depois perdi meu pai por latrocínio e as coisas ficam bem pesadas. É essa história que relato no livro.

As pessoas sofrem com a depressão e não tem ideia do que está acontecendo, que existem lugares que podem ajudar a pessoa a sair dessa crise, ela não tem uma pessoa para orientá-la, para dizer assim, esse aqui é o caminho. Elas vão ao óbito, vão dar cabo da própria vida, porque falta conhecimento de locais que podem fazer essa transformação social que a vida dela precisa. A transformação social não vejo só na questão do emprego e renda, mas também as pessoas têm que ser incluídas dentro de um tratamento humanizante da saúde mental.

A Lei 10.216 de 2001, da Reforma Psiquiátrica do deputado Paulo Delgado, não era baseada nas ideias dele, mas sim nas ideias da Dra. Nise da Silveira, que é importante a gente relatar para que as pessoas saibam, que não foi algo que nasceu do nada. Franco Basaglia ali e Dra. Nise trouxeram para dentro da história a ideia de um tratamento mais voltado para a sociedade, que viesse a humanizar esse tipo de tratamento.

 Você se refere várias vezes no seu livro aos grupos de ajuda mútua. O que são esses grupos exatamente? Qual a importância deles para você, para o seu desenvolvimento, a sua melhora psicológica, mental?

Os grupos de ajuda mútua são os grupos criados pelo professor Eduardo Mourão no Observatório da UNB, o OBSAM. É o “Projeto Tranverções”, que tem no Rio de Janeiro e em vários estados da federação. Ele acontece também na Inglaterra, em outros lugares da Europa e nos Estados Unidos. As pessoas no projeto são remuneradas por ser um braço auxiliar do CAPS. Aonde o CAPS não vai, que é o território, que é a comunidade, esses facilitadores de ajuda mútua vão.

Esses guardiões vão no espaço de uma ONG, em uma praça pública, e assim discutem as nossas questões, aquilo que mexe com os nossos sentimentos, que nos traz angústia, que nos traz dor. Tudo o que é discutido ali, dentro daqueles grupos, fica ali, não sai dali

A escuta também é qualificada porque eles são formados através das suas vivências, através das suas experiências. Eles contam o que fizeram para transformar a vida deles, o que eles fizeram para sair do luto, para sair da dor, para sair daquele sofrimento intenso. Então, a gente tem que ter essas redes de apoio, para que a gente consiga olhar a vida com um olhar diferenciado.

Quem faz a formação desses líderes, desse pessoal que lidera os grupos de convivência?

Eles leem a apostilha do professor Eduardo Mourão e começam a implementar a metodologia, não só dentro dos acampamentos, mas também no CAPS Paranoá, onde tem o Bloco do Rivotril e Maluco Voador. Existe essa formação e com a certificação para que você saia formado nessa área, que leva essa mensagem para quem realmente necessita essa metodologia que é saber lidar com o outro, ter empatia e se colocar no lugar do outro. A gente tem que ser empático e ver o que aquela pessoa está passando. Qualquer ser humano é sujeito a isso.

Você disse que fez uma parceria com a OBSAM, Observatório de Saúde Mental da UnB. Como é que foi essa parceria?

Para chegar ao Observatório da UnB, tive que passar pelo Movimento Pró Saúde Mental do Distrito Federal. Ele foi uma das pontes. Mas a primeira ponte foi a terapeuta ocupacional do CAPS de Samambaia, Mayara Yoris, que me colocou nesse curso, que eu tinha condição de aplicar essa metodologia dentro do meu território, dentro da minha comunidade.  

No livro você fala da importância do psicólogo. Como é que é a relação psicólogo-paciente?

É levar a tua dor, a tua angústia, porque se você não se abrir em relação a esse sofrimento, a pessoa também não vai conseguir orientar você da melhor maneira possível. Então, não esconda esse sentimento que você tem, essa dor que você tem, essa angústia, porque aquelas pessoas que estão ali, elas se qualificaram para poder dar o melhor dentro dessa relação.

O psicólogo muitas das vezes, também recebe essa nossa carga de sofrimento. Assim como os usuários da saúde mental passam por esse procedimento, eles também são usuários do CAPS e são também pessoas que passam por esse tipo de sofrimento. Eu conheço psicólogos que já adoeceram tratando de outras pessoas e de tanto buscar a dor do paciente, ele também se viu em estado de depressão, em estado de angústia, até ter surto psicótico.

No livro, você narra os sofrimentos que você passou ao longo da vida por causa do preconceito, preconceito de cor e por você ter tido uma infância pobre. O que esse preconceito significou na sua formação como pessoa?

Hoje a gente chama de bullying. A gente tem que entender que o racismo está impregnado dentro da nossa sociedade.  Mas eu aprendi o seguinte: já fui chamado de macaco, de uma série de coisas assim e naquele tempo, eu não sabia lidar com isso. A psicologia me ensinou a lidar com as minhas questões também. Eu precisava sentir isso na pele para que eu pudesse mudar também as minhas condutas. Se eu não tivesse conhecido o tratamento em saúde mental, tinha muita coisa que eu não saberia lidar, buscar um caminho, buscar um sentido para a minha vida.

Já estive com a minha mãe em lugares onde a pessoa xingou ela de preta velha. Me deu vontade de dar uma pancada naquela pessoa. Eu me sentia humilhado ali, colocando a minha vida em perigo e a dela, por causa de um comportamento que não é meu, que é alheio, que é do outro.

Então, eu entendo hoje que a cura não tem que partir só de mim, mas da outra pessoa que está do outro lado. Pra isso, o racismo é crime, quando você sofre desse preconceito, você pode buscar os caminhos da justiça para resolver isso. Mas se você se sente abalado com essas coisas que acontecem com você, procure ajuda psicológica.

O seu primeiro emprego foi na Novacap. Como foi essa experiencia?

Foi por concurso público. Eu era concursado na NovaCap e com um certo tempo eu era da CIPA, Central de Equipamento individual e Coletivo. Lá me envolvia muito com as relações entre as pessoas. A CIPA, na verdade, é um movimento onde você vai lutar para que a pessoa não saia para trabalhar sem o EPI, que é o Equipamento de Proteção Individual. Você está ali dentro daquele grupo que organiza o teu mercado de trabalho. Então, eu briguei muito por direitos que era dos outros, só que como eu estava sem a minha estabilidade, eles me demitiram e só disseram que não precisava mais da minha mão de obra. Eu saí faltava um mês para completar o meu estado de probatório.

Você teve outros empregos? Como foi?

Eu também trabalhei na segurança privada e passei por vários preconceitos em relação a isso. Quando minha mãe estava na UTI, eu tinha trabalhado vários plantões. A empresa estava me devendo 19 plantões, que era mais de um mês de serviço trabalhado. Eu ia para a faculdade e visitava minha mãe no hospital, ficando com ela naquela noite, e no outro dia tendo que ir trabalhar. Teve um dia que eu cochilei porque eu não estava bem, porque eu estava há mais de 36 horas desacordado, entre trabalho, UTI de hospital e acompanhamento da minha mãe no hospital e emprego.

Eu pedi algumas coisas para esse camarada e ele falou que não era para eu fazer. Eu disse, não. Ele respondeu que ia me demitir. Eu tive que me afastar simplesmente porque o cara não tem empatia pra se colocar na minha situação e era uma pessoa que me pedia para eu cobrir atestado, faltas, cobrindo morte de outras pessoas fora do meu plantão.

No livro você ressalta muito a importância da amizade. Qual a importância da amizade na vida e na formação de uma pessoa?

Tem muitas pessoas que se isolam, começam a se esconder das pessoas o que elas vivenciam, o que elas passaram. Esse é o refúgio dela, é um canto escondido de todos, aí ela começa a se entregar. Só as pessoas que estão ali só sabem a carga de sofrimento que estão passando e tem coisas que elas não conseguem falar. Só que esses gatilhos, você só começa perceber quando a pessoa começa a deixar de comer, começa a deixar de tomar banho, as vezes ela come demais, ou come de menos.  Lá no final do meu livro, eu me refiro a isso.  É como você estar dentro de um ovo, prensado, e quando você quebra a casca, o ovo não sai, ele não vai sentir aquela liberdade. Quando você procura ajuda, você procura os meios sociais, sair para se divertir, convidar amigos e assim para fazer algo diferente. Existe vida além do CAPS, a gente está ali fazendo o nosso tratamento, mas a rua é uma extensão desse tratamento, a rua, os eventos festivos. Fui delegado em várias conferências de saúde metal. Fui delegado em conferência de cultura, participei do Conselho de Segurança Pública, porque sempre acreditei que isso aí poderia trazer mudanças, poderia fazer a transformação que a minha vida precisava. Fiz arraial para trazer cultura para a minha cidade, para movimentar a economia local. Sempre procurei maneiras de lidar com a minha depressão. Para mim não foi fácil. Mas também, se eu ficasse em casa, só murmurando, em relação ao que estava acontecendo na minha vida, eu também não teria tido a transformação que eu tanto almejava, que eu tanto precisava. Tem que ir para fora, tem que se relacionar, manter esses amigos por perto, que é uma coisa mútua, é um vai e vem, que você leva alguma coisa, recebe outra coisa. Isso é fundamental.

Outra coisa que você ressalta muito é se colocar no lugar do outro. Como é que isso funcionou para você?

Quando a gente está dentro de um CAPS, quando você começa a coordenar esses grupos de ajuda mútua, você começa a ter um olhar diferenciado para as coisas. Na metodologia do grupo de ajuda mútua, a gente faz uma roda de conversa, três minutos para cada um, respeitando o tempo de cada um. Aí a gente pergunta: o que foi que você fez para sair dessa situação? O que você fez para melhorar a sua vida? A pessoa que está ali do lado, dentro daquela roda de conversa, vai entender: caramba, era só isso, e eu nunca pensei nisso! Então, ajudar o outro a buscar um sentido para a vida dele. Essa empatia é você se colocar no lugar do outro, e ver também que aquele sofrimento que ele passou, qualquer um está sujeito.

Vamos falar um pouco sobre a experiência com a sua família, seu pai, sua mãe, seus irmãos. Como foi?

Ao longo da minha vida tive muita dificuldade dentro do seio familiar. A gente não tinha televisão em casa, assistia televisão na casa de vizinhos. A gente comia mal, não tinha acesso a zoológico, a cinema, a passeio e mesmo assim a gente se sentia feliz. Dentro da minha casa a gente tinha muitos conflitos. Acredito que tenha sido esse um dos pontos que adoeceram a minha mãe. Por nada a gente brigava. A gente tinha a depressão, mas eu não sabia o que era, eu achava que eram aquelas brigas constantes.

Como eu não tinha conhecimento que aquilo era um problema, eu convivia com aquilo e não sabia que era uma doença. Só com o passar dos anos, depois que a minha mãe faleceu, que eu tive que procurar o CAPS. Eu tive esse acolhimento dentro do CAPS para que eu não viesse dar cabo da minha própria vida. Como eu falo no livro, eu cheguei ao ponto de querer me matar e até tentei isso.  Nessas condições, se eu não tivesse conhecido a assistência mental, você pode ter certeza de que hoje eu não estaria aqui também para te contar um pouco dessa minha história.

Eu imagino uma barra muito pesada, mas ainda assim você coloca no livro que a família é a base de tudo. Eu sei que você teve muita dificuldade, mas você teve essa compreensão da importância do ambiente familiar. Fale um pouco sobre isso.

Toda família tem briga, tem contenda, a gente depois se entendia. Só que a gente poderia estar em uma situação melhor hoje.

Como é que é a sua relação com o Movimento Pró-Saúde mental do DF?

Ele é antigo. Esse é um dos primeiros grupos pela luta antimanicomial no DF. Eu fui acolhido por esse movimento. Como eu estava dentro dos processos da saúde mental, participando de conferências, participando de congressos dentro da saúde mental, participando desses grupos de ajuda mútua, apareceu na minha vida o Movimento Pró-saúde Mental e a Maria da Glória e Maria Aparecida Gussy, enfermeiras e professoras da UnB. Conhecendo a Gussy e esses movimentos sociais através do Observatório, a gente vem para discutir a melhoria dessa política de saúde mental e uma atenção mais humanizada dentro da luta antimanicomial. O Movimento de luta em defesa da luta antimanicomial é o tratamento de portas abertas, sem internações prolongadas, com a duração máxima de até 14 dias.

 A gente luta por um CAPS mais humanizado, mais inclusivo e não só a questão do CAPS, mas das Residências Terapêuticas, dos Centros de Convivência, que é muito importante. A gente diz não ao Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo aqui de Brasília, diz não também as comunidades terapêuticas que são muito asilares. Muitas internações nesses locais são de longa duração.

Então, a gente está aí no meio dos eventos de saúde mental, discutindo uma saúde mental humanizada que a gente tanto almeja, que a gente tanto busca. Participo também do Monula, Movimento Nacional dos Usuários da Luta Antimanicomial. Não é só a questão do Movimento Pró-Saúde Mental, mas também do Fórum Revolucionário da Luta Antimanicomial. Eu represento o Distrito Federal na área nacional dentro desse debate, dentro dessa construção de propostas para saúde mental.

Lá no Rio de Janeiro, os grupos de ajuda mútua, funcionam pela CLT. Brasília está muito atrasada nesse sentido, porque até hoje, os grupos de ajuda mútua são feitos de forma voluntária, sem remuneração.

Quem é o parlamentar mais ligado à área de saúde mental aqui no Brasília?

Eu consegui uma emenda parlamentar com o deputado Ricardo Valle para os grupos de ajuda mútua. Eu redigi o texto desse projeto, mas ainda não foi aprovado. Também tem a Erika Kokay, o Gabriel Magno também, que é distrital. Mas falta muito pra gente avançar. Falta muito pra gente avançar, porque, a emenda não chega nos lugares da saúde mental. É por isso que destaco a importância do Eixo 7 da RAPS.

(O Eixo 7 da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) foca na Reabilitação Psicossocial, que engloba estratégias para promover a autonomia, inclusão social, exercício da cidadania e reinserção na vida comunitária de pessoas com transtornos mentais, através de atividades como geração de trabalho/renda, economia solidária, cultura, arte e moradias solidárias, fortalecendo a rede social e comunitária.)

Gostaria também de ressaltar a importância de Pawl Singer, que foi o precursor da economia solidária no Brasil. Ela deveria existir dentro da RAPS. Existem leis regulamentadas pra isso, está nos preceitos fundamentais da norma, só que, na prática, não existe o financiamento dentro da RAPS, nem do Ministério da Saúde, nem na Secretaria de Saúde pra financiar a economia solidária dentro do Distrito Federal e do Brasil.

O que está faltando?

Mobilização, falta as pessoas se unirem mais pra cobrar isso. O controle social tem que cobrar isso, realmente. Nós que fazemos o controle social é que temos, sim, que fazer essa cobrança. Mas eu entendo que não é só fazer essa cobrança, mas também é criar audiências públicas discutindo esse tema e fazendo com que a LDO, a Lei das Diretrizes Orçamentárias, incluam esses recursos.

Recentemente, acho que isso tem a ver com o que a gente tá falando, teve um caso de grande repercussão na mídia. Um rapaz de 19 anos invadiu uma jaula no Zoo em Pernambuco pra “enfrentar” um leão. O rapaz foi morto na hora. Ele tem um histórico de abandono, de falta de cuidado familiar. A mãe simplesmente se recusou ficar com o garoto. Desde criança, ele tinha sinais claros de transtornos mentais e foi abandonado, tanto pela família como pelo Estado. Você não acha que esse caso específico caracteriza muita a falta de cuidado da sociedade, da família, com as pessoas que têm um sofrimento mental grave?

 Eu acredito que é por aí mesmo. Na verdade, essas pessoas precisam de ser acolhidas. Esse rapaz, inclusive, estava com a avó no zoológico, em Pernambuco. De repente, ele foi encarar o leão. Ele sonhava ser um domador de leões. O cara era um garoto de 19 anos que ele passou por alguns CAPS, entrava e saia deles frequentemente.

Você acha que o Estado também falhou nesse aspecto?

Quando você está dentro de um sistema, totalmente adoecido, acredito que sim, faltou o Estado, da política de cuidado. Por isso, que a gente briga muito dentro das conferências de saúde mental, para que haja mais CAPS, mais Centro de Convivência, para que acolha essas pessoas. Nem todo o estado do Brasil tem um CAPS perto das comunidades. Em muitos municípios, o CAPS é distante e nem todo mundo tem acesso a esse tratamento humanizado que a gente tanto almeja. O Estado ainda falha muito nesse atendimento. Esse foi um caso típico, emblemático de um descaso do Estado, sabendo que o cara corria risco de vida para ele e para os outros.

Eu tenho uma rede de cuidado muito grande. Independentemente do que eu passo, independente do que eu vivo, eu tenho essa rede de cuidado e tenho consideração por ela. Eu sou cercado de muitas pessoas que conhecem a minha história de vida, mas eu também procuro mudar a história de vida das pessoas. É por isso que nasceu esse livro de como eu aprendi a lidar com a depressão, usando a minha história de vida para transformar outras vidas.

Eu tive um luto que foi a perda de um emprego, a perda de uma mulher que eu achei que era para a vida inteira. Na verdade, eu tive várias perdas ao longo dos anos e aprendi a lidar com isso. A depressão não vai se curar, mas existe maneiras de você lidar com ela: as terapias, os grupos de ajuda mútua, atividades como ir ao cinema, ao teatro, porque existe vida além do CAPS. As pessoas não precisam estar ali, enfincadas dentro de um CAPS a vida inteira sem procurar outra dinâmica para a vida.

A maioria das pessoas que estão dentro do CAPS, ficam ali na de segunda a sexta-feira. Se segunda-feira for feriado, a pessoa fica sem alimentar. Isso eu coloco no meu livro, que se faz necessário criar projetos de geração de emprego e renda para as pessoas terem autonomia e chegar o momento de elas saírem desse CAPS. Eu vou ao CAPS fazer minha terapia, mas eu não fico ali 24 horas, porque entendo que é lá na rua que vou aprender a lidar com esse meu sofrimento, que é lá na rua que vou cuidar mais da minha saúde metal. Você pode ir lá no CAPS pegar a sua medicação, mas tem um momento em que a medicação tem que ser retirada. Você tem que desmamar esse paciente, tem que voltar para a vida social lá fora.

Estou com três hortas no nosso CAPS. Na criação desse projeto, as pessoas vão lembrar quando ela teve contato com a terra na infância, quando ela foi ali para colher alguma coisa na roça, quando ela morava no campo ou se você faz um trabalho com mosaico, ela vai lembrar o contato dela com o gatinho, o tanto que foi importante ter ali o contato com o cachorrinho dela, se ela gosta de ter um animal de estimação, se ela gostava de ter o colo da mãe, o colo do pai, que ela foi perdendo essa identidade. É importante resgatar isso através da arte, do teatro, da pintura.

Quando a gente mora em cidade grande, a gente não tem mais o contato com arraias, de acender uma fogueira na Festa de São João, da tradição de botar uma batata para assar, fazer uma canjica, tomar um quentão, ir ali dançar as músicas tradicionais das festas juninas dentro da cidade. Essas tradições estão morrendo, infelizmente e a gente tem que resgatar isso.

Você deu um depoimento muito rico, muito detalhado e que ensina a muita gente. Coisas da vida que nem todo mundo para pra pensar nisso.  Você poderia dizer que hoje é feliz?

 Eu sou feliz, mesmo com todas as pauladas que a vida já me deu.  Eu estava em um relacionamento até um dia desses, ainda sou casado, não divorciei ainda. Eu devo primeiramente amar a mim mesmo. Por mais que eu a ame, eu posso até esperar. Essa pessoa que eu amo de verdade, que é a Thaís Silva Oliveira, hoje é a mulher da minha vida, embora eu não saiba o que fez com que ela abandonasse a nossa relação.

Ela me mandou uma mensagem no WhatsApp, dizendo que ia embora. A gente não conversou olho no olho. Ela nunca me colocou essa insatisfação.

Mas isso não significa que vou agora me entregar. Não vou me entregar. Eu sofri bastante nos últimos dias, mas eu sou feliz. Eu sou feliz, sim. Embora esteja com o coração triste, não significa que não sou feliz.

Se não for pra ficar com ela na minha vida, Deus vai me mandar outra pessoa. Eu vim sofrendo esses dias, mas não vou me entregar ao sofrimento. Eu saí de vários lutos. Então, vou sair desse luto mais uma vez. Vou sair desse luto, porque a perda de um casamento, como eu falo nesse livro, é um tipo de luto. A perda dos meus empregos, que vem acontecendo. A empresa que eu trabalhava faliu agora. Eu perdi todos os meus direitos trabalhistas. É assim, tenho que continuar lutando.

Vou sair do luto pra ir à luta. Vou vencer mais essa barreira. Existem muitas mulheres por aí. Se eu não for com ela, vou sair com outra. No momento, não tenho a mulher que amo, mas o amor pode acontecer outra lá na frente.

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Celio Calmon

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