Entrevista com Dioclécio Luz, jornalista e escritor

Por mais de 30 anos, Dioclécio atuou com radiodifusão. Como jornalista, publicou em vários veículos da imprensa, como o Jornal da Semana Inteira e a revista JOSÉ. As reportagens publicadas no JOSÉ foram convertidas no livro Roteiro Mágico de Brasília, em dois volumes. Dioclécio também publicou outros 12 livros, sendo o mais recente “A escola do medo: vigilância, repressão e humilhação nas escolas militarizadas”.

Eu trabalhava no jornal José, jornal de semana inteira, que acabou, do Luiz Gutenberg. Lá eu escrevia sobre um assunto diverso, a cidade, personagens, etc. Um dia o diretor do jornal, Luiz Gutenberg, que é jornalista que fazia resenha de livros. Um dia eu cheguei lá na mesa dele e tinha um livro do Alex Polari sobre o Santo Daime. O Alex Polari foi um cara que lutou contra a ditadura, etc. Quando eu vi o livro, eu vou pegar, levar pra mim pegando. Eu já tomei um aqui em Brasília, um Santo Daime. Quando eu falei isso, ele arregalou os olhos, porque não era tão conhecido na época. Ele disse, você já tomou? Eu disse, já. Você leva o livro, mas você vai escrever uma matéria sobre o que você viu, o que você sentiu nessa experiência. Aí eu escrevi a matéria, ele botou na capa, e foi um sucesso extraordinário. Eu não vou dizer que o jornal vendeu mais, mas ele recebeu muita ligação, de jeito interessado, porque era um jornal político e econômico, entrando nessa área.

A matéria fez um maior sucesso, eu acho que vendeu mais jornais. Quando eu cheguei no Guttemberg e ele disse, “sabe aquela sua ideia? Vamos fazer uma coluna no jornal, uma tira, de cima a baixo, chamada Brasília Mística.”Ele disse pra mim, o que é que eu vou. Eu disse, coisas do tipo, você vai achar esse monte de doido, maluco que vê disco voador, que conversa com não sei quem. Eu confesso que na hora eu disse: Eu não vou achar essas coisas todas, não vai ser fácil, deve ter uma aqui, Cidade Eclética, Vale do Amanhecer. Eu descobri que não só existia um monte, como a gente suspeitava, como existia uma rede. Fulano frequenta o Vale, que conhece o outro que vê o disco voador, conhece o outro que lê mão. Isso que facilitou a minha vida. Uma pessoa ligava pra outra e depois pra outra.  Aí tem a história de um cara que diz que viajou pra um planeta e ele descreve como é o planeta. Depois eu encontrei uma mulher que foi abduzida com o carro dela. Ela e o marido foram abduzidos. É uma história curiosa, porque ele era evangélico, ela não era. Quando chega lá de cima, o cara diz que o ET era o demônio, ficou discutindo lá com o ET. Foi por aí que começou, eu procurando os doidos, os malucos dessa área.

Vamos falar sobre o lançamento do livro “O Roteiro Mágico de Brasília”, em 1986.

Eu lembro que eu já tinha feito teatro. Então, eu disse, vamos fazer um lançamento muito especial. Foi lá foyer do Teatro Nacional. Eu tenho essa dúvida se foi no Teatro Nacional ou no Crespo (??). A ideia era fazer um lançamento como uma festa. Uma espécie de festa. Então, chamei gente que sabia dançar. Um casal de amigos meus dançaram lá. Outra amiga, que está inclusive no Roteiro Mágico, lia mãos e mexia com o rock. Então ela fez toda uma mise-en-scène em cima disso. Então teve um cara que tocou e cantou. Então eu chamei todo mundo que eu conhecia das artes. Então esse foi o lançamento e o livro foi um sucesso. Ele vendeu muito. A Codeplan, que era uma gráfica do governo José Aparecido. Disseram assim: “esse livro tem importância para o governo, para o turismo. Então vamos fazer assim, a gente vai publicar 5 mil exemplares mil são nossos e 4 mil são seus.

Reunião do Grupo Órion

Vamos falar um pouco mais sobre pesquisa de campo. Como é que foi?

Eu vou começar falando do final. Que depois desse primeiro volume, do segundo, uma das coisas me deixa vaidoso. As pessoas que eu entrevistei, ninguém fala mal de mim. Pelo contrário, falam bem. Por quê? Porque eu fui para ouvi-las, sabe? Eu fui para ouvir esses malucos, sabe? Porque eram as ideias diferentes. Eu sou um leitor de Garcia Marques. Então, encontrar um personagem como o João de Deus, por exemplo. Uma outra figura espetacular era o Fernando Cariello (se escreve assim?)  Ele disse que recebeu ou recebia uma entidade que era ele 10 mil anos na frente. Entendeu? Imagina você conversar com alguém que é 10 mil anos na sua frente, com espírito evoluído. Imagina!

Aconteceu uma coisa engraçada uma vez. Eu não fui só uma vez nesses tempos. Eu fui lá outra vez com uma amiga, que levou uma visitante alemã. Aí lá vai o Cariello falando e a visitante não sabia nada do que ele estava falando. Me pediram para traduzir. Eu não sei falar alemão, mas eu traduzi para o inglês, com detalhe, eu não sei falar inglês. Então, não sei como traduzi, sei que eu traduzi. Não foi incorporação de uma entidade, entendeu? Teve essas coisas engraçadas.

Eu vou te dizer, a minha vaidade é que essas pessoas não dizem que eu sacaneei com elas. Isso é muito importante. Eu gostei disso. Quando eu percebia, e aconteceu com poucos, que a pessoa é picareta, aí eu já não fazia. Mas eu não chegava para fulano: você está mentindo. Você bebeu, você cheirou. Não, não faria isso. Eu queria ouvir a história. O relato. Isso tem um nome que eu não sei agora dizer. Eu achava importante que as pessoas ouvissem um sujeito que comandava o Vale do Amanhecer. Baseado em quê? Que tem maias, astecas, tem espiritismo, que a pessoa explicasse isso ao seu jeito e não eu. Era isso que eu queria. A pesquisa foi muito isso. Eu assistia o ritual, quando tinha ritual, conversava com a pessoa, marcava a reunião e lia livros e publicações dele.

Centro Energético Brasileiro – Ifigênia

Como é que surgiu a ideia de que Brasília é a capital mística do 3º milênio?

Primeiro vamos para Yara Kern, foi quem divulgou mais isso, que Brasília seria uma incorporação do Egito. Ela escreveu o livro “De Aknaton a JK – das Pirâmides a Brasília”. Ela foi uma das que sustentava esse caráter místico de Brasília. Aí, voltamos para Dom Bosco. Eu fui estudar Dom Bosco, no que era possível e descobri que Dom Bosco saiu espalhando essa ideia. Ele chegou na Argentina e lá foi catequizar. A ideia era essa, catequizar e espalhar a religião católica. Agora, na minha opinião, a igreja católica como fonte é uma tragédia. Você não confia, não pode confiar. Os santos têm umas vidas maravilhosas e quem confia naquilo? Eu não acredito nessa história de Dom Bosco, para começar. É só uma invenção. Pra mim essa história é suspeita, não acredito nisso.

Mas o que teria por trás disso?

A gente está falando de uma religião que a todo momento, a todo custo, tenta se impor, impor suas ideias, sua ideologia para manter o poder, inclusive espiritual, principalmente. Um dia desses, fui fazer um curso na UNB, uma disciplina na arquitetura, chamada História da Arte e da Arquitetura. O curso não tem nada a ver com isso. Mas começa com a religião, a arte, com os sumérios, vem a arquitetura e tal. Quando chega no século V, é quando Roma instala ou aceita o cristianismo como a religião oficial, naquele poder romano espalhado pela Ásia e toda a Europa. Sabe como é chamada essa era, esse período? Idade das trevas. Então, quando a Igreja domina, ela cria a idade das trevas e isso diz muito e, para se impor, eram usados todos os métodos possíveis:  guerra, porrada, discriminação. Tudo, tudo que era possível.

Então, eu não aceito esse negócio de teologia da libertação, que para mim é uma conversa transgênica, porque não dá para ser cristão e comunista como eles querem. É uma coisa transgênica, é fake, é falsa e tão pouco acredito nessas histórias de santos.

Para terminar: a igreja católica, que eu não queria trazer para cá, eu nunca acreditaria numa religião, num grupo que tem como símbolo um elemento de tortura. É o símbolo da tortura que marca essa religião. uma cruz. O herói deles foi torturado. É o símbolo que esse povo segue.

Grupo Ordem dos 49 – ufologia esotérica

Como foi a pesquisa que você fez para encontrar os grupos aqui em Brasília que estão nos seus dois livros?

Uma pessoa me levava às outras, eu lia os livros, assistia o ritual, eu bebi o daime, eu bebi o daime. É porque eles chamam de daime. Então, o daime, tem a união do vegetal. Duas instituições que tem o Ayahuasca, e que ingerem o bebido em rituais completamente diferentes. Eu bebi, andei por aí ouvindo as pessoas e lendo o que eles diziam. Claro que tem coisas que você se assombra.

Você destacaria entre esses grupos que você pesquisou na época algum que realmente tenha te mexido mais assim? Não digo nem intelectualmente, mas que te tocou. Qual o grupo que você poderia destacar assim, na época?

 O Vale do Amanhecer pela dimensão, pelo colorido. Parece um filme do Fellini, sei lá, aquela coisa. Mas não tem nenhum que diga que iria seguir, não. Nenhum eu seguiria.  O Vale é um caso à parte, realmente.

Tem a cidade eclética, por acaso, a gente viajou, eu e minha mulher viajamos para o Sertão Goiano. Na volta passamos lá e lembrei da história do Oceano de Sá (fundador da Cidade Eclética). As histórias que são legais, me impressionavam. O Oceano de Sá diz que era aviador e começou a receber umas mensagens, uma voz que dizia pra ele largar aquilo e vir pra Brasília. Ele é do Rio de Janeiro. Você tem que vir pra Brasília e chamar um povo para o que seria hoje a Cidade Eclética. Ele disse: “Ah, vai se lascar. Eu não quero saber disso. A voz disse: “Não, você tem que ir, rapaz.” Não vou. Aí onde ele estava lá em cima pilotando, voltou a mensagem: “Você tem que ir, rapaz”. O avião dele caiu, mas ele não morreu. Era um avião pequeno.

Aí quando ele estava lá no hospital quebrado, ele conta que chegou novamente coisa assim. Então, vai pra Brasília. Ele disse, vou, agora eu vou. E veio um monte de gente de faculdade. As histórias é que são boas. Talvez eu não tenha sabido contar, mais histórias. Agora é a questão da pessoa se identificar, acreditar ou não.

Ah, tem uma outra história engraçada. Eu tive um grupo lá no Lago Sul, aqui em Brasília, que se reunia e dava passe. Eu fui lá. Os espíritos têm isso. Eles pegam o espírito que está nas sombras, etc. e dão passagem, como eles dizem, pra luz. Então, faz aquela coisa e dão passagem pra luz. Só que esse grupo dava passagem pra 10 mil pessoas de uma vez, que é um número imenso. Aí eu fui lá. Não vi nada. O cara disse: não, aqui damos passes não sei, sei lá, 10, 15 mil, coisa e tal. Eu relatei tudo isso na matéria que publiquei. Nessa época eu já estava colocando o endereço dos espaços. A matéria saiu e eu cismado. Eu achei muito. Eu exagero.

Uma pessoa ligou pro jornal. Deoclécio, quero falar com você. “Você que fez aquela matéria? Eu queria o endereço, você não colocou coisa e tal. Caramba, eu vou dar o endereço dos caras que me parecem picaretagem ou maluquice demais. Mas eu dei o endereço. Passou um tempo, eu estava num restaurante vegetariano, que eu sou vegetariano. Chegou um casal amigo com mais uma mulher. Eu disse, vamos almoçar aqui. Aí o cara disse: esse aqui é Deoclécio que faz aquela matéria. Ah, eu conheço. Ele disse, não, não conhece a veia. Eu liguei pra você pra ver aquela matéria do grupo. Aí eu comecei já a tremer, a gelar. Eu disse, eu gostei muito daquela matéria. Ela disse, eu fui lá. Mas, depois que ela falou isso, eu não falei nada.Eu só ouvi e ela disse: era o que eu queria na vida. Era o que eu procurava. Muito obrigado.Aí aprendi uma lição. Essa coisa é o que cada um é pra cada um, sabe? O mais doido é que quando chegam no lugar, é o seu lugar. Acabou-se. Vai entender…

Padre Miguel de Sobradinho incorpora Frei Fabiano

Três anos depois você lançou o volume 2. Como é que foi esse volume 2 do Roteiro Mágico de Basília? Foram novas pesquisas, novos grupos que você descobriu?

Sim, novos grupos. Também foram matérias publicadas no jornal porque tem uma coisa que eu tenho que falar. Talvez você pergunte por que eu não fazia uma segunda edição e eu vou adiantar o que tem a ver com isso. É que na medida que você vai fazendo, você vai aprendendo alguma coisa. Você vai saber, por exemplo, a diferença entre ufologia esotérica e ufologia científica. A científica é aquele cara que vai ver um disco voador, vai lá, fotografa, procura detalhes, investiga. A esotérica é por incorporação. A gente vai aprendendo, não tem jeito. Quando eu cheguei no segundo volume, eu já sabia mais alguma coisa sobre esse mundo aí. Então, você tem mais histórias, não só mais histórias, como há uma profundidade maior, eu diria. O primeiro era muito inocente, o segundo era menos inocente.

Mas também eu conto as histórias só com outros detalhes. Essa é a grande diferença. Mas tem muita gente, muita gente nova, grupos que você não tinha ainda. Tudo novo. Por exemplo, tem um cabra que é um médico que fazia foto kirlian. Eu tenho memória curta, mas às vezes eu lembro disso. Fui entrevistá-lo. Como é que é isso? Ele mostrou o aparelho. Não sei se você lembra. A pessoa bota a mão e ele faz uma foto onde aparece uma aura em volta da mão. Ele estava fazendo uma espécie de pesquisa. Ele estava pedindo uma pessoa com saúde, uma doente e um defunto.  Foi fotografar. Eu lembro que ele disse que era como se cristalizasse a aura à medida que a pessoa morre. Mas o curioso, ele disse, se eu parei com a pesquisa é porque um dia eu estava lá no cemitério e quando eu vi, estava pegando a mão do defunto e colocando no aparelho. Ele também tomou um espanto e parou com essa pesquisa. Mas é só a gente. Era sempre gente nova.

 Jayadev – Grande Fraternidade Branca

Compartilhe:

Celio Calmon

Autor & Blogger

Post anterior

Veja também:

  • All Post
  • 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental
  • A História da Loucura
  • A Reforma Psiquiátrica
  • Álcool e Drogas
  • Ansiedade e Depressão
  • Arte e Loucura
  • Blocos de Carnaval
  • Comunidades Terapêuticas
  • Entrevistas
  • Hospitais Psiquiátricos
  • Indústria da Loucura e Medicalização da Vida
  • Iniciativas Parlamentares
  • Luta Antimanicomial
  • Manicômio Judiciário
  • Personalidades da Luta Antimanicomial
  • Políticas Públicas de Saúde Mental
  • População em situação de rua
  • Psicofobia e Estigmatização
  • Saúde Mental
  • Sem Categoria
  • Transtornos Mentais
  • Vídeos

Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sobre o Observatório da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial

Direito à loucura

O “Observatório da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial” é um site de notícias com informações publicadas em diversos veículos de comunicação e nas redes sociais sobre a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. O Observatório está aberto à participação de todos que defendem a luta por uma sociedade sem manicômios e por tratamentos humanizados e em liberdade para pessoas com sofrimento mental.

Newsletter

FIQUE POR DENTRO

Receba novidades por e-mail

Últimos posts

  • All Post
  • 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental
  • A História da Loucura
  • A Reforma Psiquiátrica
  • Álcool e Drogas
  • Ansiedade e Depressão
  • Arte e Loucura
  • Blocos de Carnaval
  • Comunidades Terapêuticas
  • Entrevistas
  • Hospitais Psiquiátricos
  • Indústria da Loucura e Medicalização da Vida
  • Iniciativas Parlamentares
  • Luta Antimanicomial
  • Manicômio Judiciário
  • Personalidades da Luta Antimanicomial
  • Políticas Públicas de Saúde Mental
  • População em situação de rua
  • Psicofobia e Estigmatização
  • Saúde Mental
  • Sem Categoria
  • Transtornos Mentais
  • Vídeos

Instagram

Temas

Edit Template

© 2023 Observatório da Reforma Psiquiátrica  | Admin
Website por LP21